378. CATIVA-ME, SENHOR
“E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.”
2Co 5:15

George Matheson (1842-1906)
Trad. Eduardo Henrique Moreira (1886-1980)
LEOMINSTER
George William Martin (1828-1881)

1. Cativa-me, Senhor, pra livre eu ser, então;
Submisso, faz-me vencedor por essa submissão.
Nos braços Teus de amor grilhões encontrarei
E, desarmado, ó Salvador, vitória gozarei!

2. Minha alma, sem achar um alvo, ó Salvador,
Qual folha, andava a esvoaçar das brisas ao sabor.
Porém, a sujeição ao jugo que Tu tens
Traz ao meu pobre coração da liberdade os bens.

3. Não me pertenço já, pois me entreguei a Ti;
Se toda honra gozas lá, desejo honrar-Te aqui.
No rude batalhar serei triunfador
Se, derrotado, me prostrar perante o meu Senhor!

     À primeira vista, parecem estranhas as palavras deste hino. Como pode uma pessoa ser, ao mesmo tempo, cativa e livre? Como pode ser vencedora sendo submissa? Ou, ainda, ter a vitória estando desarmada e presa em grilhões? Não é isto um paradoxo?

     Foi em consideração a isso que o compositor americano Donald P. Hustad compôs para este hino uma nova música, a qual deu o nome de “Paradoxo”.

     Há muitos paradoxos nas Escrituras: “Quando estou fraco, então é que sou forte” (2 Co 12.10). “Quem quiser amar a sua vida, perdê-la-á” (Mt 16.25). “Aquele que entre vós for o menor de todos, esse é que é grande” (Lc 9.48). Cada um destes versículos apresenta um aspecto diferente da mesma verdade espiritual.

     A ideia de paradoxo pode bem ser ilustrada pela comunhão no casamento. Ao unirem-se em matrimônio, dois cônjuges entregam-se um ao outro, prometendo esquecer todos os demais para amarem-se exclusivamente um ao outro, ficando fiéis “até que a morte os separe”.

     Quando um casal une-se um ao outro e repartem entre si as suas vidas, dando e recebendo verdadeiro amor, cada um encontra maior satisfação em dedicar-se ao outro. Em subjugar a própria vontade em benefício do outro, cada um se sente mais realizado e tem prazer em se entregar, submetendo-se voluntariamente a uma gostosa escravidão. É assim que, na “escravidão do casamento”, ambos encontram a “libertação”!

     O mesmo dá-se conosco relativamente à nossa comunhão com Deus: esta verdade é bem acentuada nas palavras do Senhor em João 12.24: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto”. Eis aí um dos mais lindos fenômenos da natureza: um grão de trigo precisa desintegrar-se e decompor-se na terra para que possa reproduzir. É somente morrendo que ele pode continuar vivo!

     Sem dúvida, o Senhor referia-se à Sua própria morte e aos resultados que ela produziria: milhares de homens e mulheres salvos eternamente. De fato, Ele não ficaria só. Mas no versículo seguinte, 25, o Senhor aplica esta mesma verdade a cada um de nós, ao dizer: “Quem ama a sua vida, perde-a, mas aquele que odeia a sua vida neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna”. Nós também precisamos morrer para os nossos próprios desejos e ambições se quisermos produzir frutos espirituais em nossas vidas.

     É esta a verdade enfatizada por George Matheson no hino que estamos focalizando. Somos fracos seres humanos, mas tornamo-nos fortes quando Cristo, como Mestre e Senhor, exerce o Seu pleno domínio sobre nós. É somente quando nos tornamos escravos voluntários de Cristo que podemos desfrutar a verdadeira liberdade.

     Sem dúvida, o autor deste hino, o Sr. George Matheson, aprendeu esta lição, conforme o demonstra o hino que escreveu. Como estudante era ele um jovem talentoso e brilhante, mas com apenas dezoito anos de idade ficou quase totalmente cego e teve de desistir de suas pesquisas no campo da apologética cristã, matéria que muito amava e à qual se dedicava com grande entusiasmo.

Matheson passou, então, a dedicar todo o seu tempo à prédica e à literatura. Propagou a Verdade de Deus através dos seus escritos, mediante os quais Deus transformou a vida de muitas pessoas. Em seu ministério oral, na Escócia, exerceu grande influência sobre todos os que ouviram a sua pregação, inclusive a Rainha Vitória.

     Matheson ficou fisicamente cego, mas alcançou uma profunda visão de Deus e da Verdade, que tornou o seu ministério muito mais eficiente. Sem dúvida nenhuma, poderia ele dizer, testemunhando este paradoxo em sua própria experiência: “Quando tornei-me cego, foi que realmente comecei a ver”

Compilado por Edgard de Almeida

Extraído da Revista VIGIAI E ORAI número 67 de Dezembro de 1993.

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